quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um Tal Dom Casmurro


Um Tal Dom Casmurro

  Lembro como se fosse hoje, o meu primeiro livro, eu andava pelas ruas com uma sensação de poder em minhas mãos e um orgulho aparente em meu rosto. O titulo era "A marca de uma lágrima" a história de uma menina e seus dilemas adolescentes, ela era o patinho feio, apaixonada pelo menino mais bonito da escola,  escrevia cartas de amor usando o nome da amiga.  Era um verdadeiro dramalhão mexicano. Acho que houve uma identificação com a personagem, pois  na época minha vida era um "drama mexicano". 



Percebo hoje como aquele livro era bobinho mas foi fundamental em minha vida, desde daquele dia nunca mais deixei de ler. A leitura hoje faz parte de mim e assim como meu humor escolho os títulos e os autores dos livros. Se estou feliz leio Dosto se eu estou triste passo longe dos crimes e castigos da vida.
Dentro de casa não existia muito incentivo visual para a leitura. Mamãe  ficou muito feliz quando eu comecei a ler. Ela ficou encantada como eu gostava de livros e como fui modificada por eles.
Um belo dia me indicaram um livro chamado Dom Casmurro. Puxa vida que livro chato! Não conseguia entender porque ele era chamado de clássico. E assim como comecei, terminei com muita frustração, um caso de amor que nem tinha que ter começado.




O tempo passou e aquela menina que gostava de romances em um belo dia reencontrou o Tal Dom Casmurro na estante. Suas páginas estavam amareladas do tempo e assim como ela, ele também tinha envelhecido. Não sei qual o motivo que resolvi dar uma segunda chance para aquele cara. Como se fosse um recomeço de um namoro mal resolvido, que depois de dez anos, resolveu dá uma segunda chance.
Ao ler novamente Dom Casmurro percebi como eu tinha crescido. E me perguntei aonde estava que não tinha gostado daquele livro. Quais eram minhas condições intelectuais naquela época? Qual era o meu amor mal resolvido? O que eu tinha na cabeça que não gostei daquele bruxo velho? Puxa que livro sensacional, seus personagens, seu vocabulário, uma magia que eu nunca tinha lido nada igual. 


E de um namoro mal resolvido eu e o Sro Casmurro quase nos casamos. Se não fosse uma moça chamada Capitu, que atrapalhapalhou nossos planos, hoje quem sabe teríamos até filhos. Eu já reencontrei com ele outras vezes. E em todas às vezes confirmo o meu amor.
Esse ano entrei na onda de um tal de Sro Cinza e confesso que fiquei totalmente apaixonada por ele. Seu charme, seu mistério e sua riqueza me encantaram.
Minhas amigas intelectuais, feministas e revolucionárias me malharam pela escolha do livro. Mas como disse minha amiga Marcelle Linpias "eu odeio preconceito literário".


Porem o meu namoro com o Sro Cinza não deu muito certo, não pelo tal preconceito literário, mais sim pela falta de dialogo entre nós. Era muito sexo e pouca conversa. Comecei acha-lo meio bobo e no segundo encontro o deixei. Sem mais, sem menos.
Odeio não terminar um livro, fiquei com uma sensação de vazio ou de incompetência mental. Mas o Sro Cinza foi demais com seus desejos sadomasoquista. Mas sempre é bom tentar novos relacionamentos, mesmos o de autoajuda. Realmente aquele homem precisa de muita ajuda. E sua autora também.
Temos que escolher bem quem levamos para cama. Pois esse momento é somente seu e mesmo que seja compartilhado a sensação não é igual para todos. O prazer pode ser diferente e a hora do tão esperado gozo, pode não rolar dependendo do clímax dos personagens.
Ler sempre é prazeroso mesmo que o livro seja ruim. Pois "Tudo que é ruim é bom pra você". E a cada leitura você se torna mais crítico e suas escolhas e gostos se tornam melhores. Assim como as escolhas amorosas, um dia você vai cansar do bom sexo e do pouco papo. Ou muito papo e pouco sexo. Sei lá. 
 Um livro nos leva a mundos imaginários e preenche um vazio nas horas de solidão. Ele transforma a vida de uma criança para sempre. Hoje a concorrência  dos livros são as redes sociais, mas o dia é longo e temos espaço para tudo, com moderação.


Sei que ainda tenho que ler muito. Para melhorar a falta de minhas concordâncias, minha falta de acento e meu vocabulário verbal. Fora a virgula que com ela ou sem ela a frase fica terrível.
Mas é lendo e aprendendo e lendo, lendo e lendo que um dia quem sabe escreverei como o sro Machado. E terei um filho chamado Casmurro.